Sobre as crises existenciais fúteis e nem tanto


Ninguém vive feliz cem por cento do tempo, é claro. Mas compartilhar momentos tristes não é nada aprazível aos olhos dos expectadores das nossas redes sociais. É preciso coragem, porque estamos em uma sociedade que só valoriza o bem-estar e os prazeres. Estes, ainda que momentâneos, perpetuam-se pela linha do tempo e somam estrelinhas no alter ego.

Somos pressionados a nos sentir bem todo o tempo. A viajar e postar fotos incríveis, a estar sempre seguindo tendências. Isso tudo para nos sentirmos parte de algo, para reabastecermos a nossa confiança e fazer com que, por isso, as outras pessoas também nos vejam como o bastante.

Tem dias em que a gente acorda sem forças. Dias resultantes dessas noites em que mal se dormiu pensando em mil coisas que poderiam ter sido diferentes.  Mas estar numa pior, ainda que por alguns momentos, acaba despertando na gente muita ansiedade: é preciso estar bem o quanto antes, ou, pelo menos, demonstrar de forma decidida isso, pois não há tempo para mimimis.

O problema é que grande parte daquilo que chamamos de angústia e tristeza acontece por motivos banais. Por que tantos dilemas se você tem uma família ótima, um corpo em perfeito funcionamento, nenhuma doença grave?

Não há metodologia. A vida não segue um roteiro pré-determinado. Assim, por outro lado, é normal ter um dia ruim, uma semana triste. Sem esses momentos introspectivos, você não consegue valorizar a alegria.

Empurrar os sentimentos para debaixo do tapete é deixar de encarar as fases, deixar de crescer e conquistar novas concepções sobre si mesmo e sobre o outro. Às vezes, esses períodos são necessários para reavaliarmos nossa vida, onde estamos e onde queremos chegar. Porque quando se está bem, há pouco espaço para avaliar caminhos. Permitir-se estar angustiado é encarar com maturidade o que é natural.

Ei, não há nada de fragilidade em ser quem realmente é. A gente deve ser mais compreensivo com nosso próprio corpo e com aquelas pessoas que estão a nossa volta. Todas as nossas incertezas, fundamentadas ou não, são parte de quem somos. 

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