Passatempo



Quando criança, achava velho quem tinha 30 anos. Hoje, tão perto dos meus, percebo como era descomplicado ver o mundo como um eterno Natal. Eis que, por um descuido, abri os olhos e percebi que a infância havia passado, que a adolescência havia acabado e bastaria mais um piscar de olhos para eu me olhar no espelho e enxergar as rugas já bem delineadas.

Mas, apesar desta reflexão que, por ora, me causa expressão de desalento, não há nada de excepcional nisso. É apenas a vida seguindo o rumo natural. Quiçá haveria um pouquinho de crueldade, pela impossibilidade de reavermos os dias roubados. E quantos deles ficaram pelo meu caminho!

Com o passar dos anos, senti como se as horas encolhessem. Vinte e quatro horas com sensação térmica de míseras quatorze. Flagro-me aflita, ansiosa pelos dias que estão por vir, querendo tirar o máximo de cada detalhe, já que tanto pareço ter perdido. Escovo os dentes enquanto calço os sapatos; bato os pés no hall, enquanto o elevador não chega. Qualquer atraso é possível que me deixe exasperada. Sinto-me espremida entre os prazeres e as obrigações.

Nos hiatos entre as tarefas, sobra-me o tédio. Pareço ter desaprendido a cuidar do pouco tempo que devia seguir sem metodologia, livre, leve e, sim, bastante egoísta. Entretanto, para isso, não há pílula, apenas cercar com muros altos certas horas do relógio, para que nada as possa roubar de mim. E reconstruir muros ainda mais fortes nos dias em que o corpo mais pesar.

O que me traz paz é saber que o prazer não envelhece. Apenas muda. E a idade é apenas um fator físico, porque, apesar das obrigações, aqui dentro ainda me vejo como uma eterna menina, de quem os sonhos, às vezes, são levados.

Este texto foi publicado também aqui.

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